Há coisas com as quais não se brinca

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“Tem coisas que não se brinca”, disse o estudante Francisco da Cruz, no retorno ao Brasil, após passar um ano preso nos EUA e voltar deportado. O custo pela brincadeira de falso alarme de bomba nas terras do norte, onde o tema é sensível, após sofrerem atentados históricos.
Concordo, há coisas com as quais não se brinca, contudo se alguém decide brincar, em um estado de direitos, não se é executado sumariamente por um troglodita que se diz investido de um poder divino, mas se é processado e sofre as sanções previstas na lei. Podemos questionar a lei, a demora da justiça e tudo o mais, o que também faz parte do estado de direito.

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O vínculo dos amigos pode não sobreviver aos percalços do destino, para enfrentar as consequências de nossos atos, na maioria das vezes, estamos sozinhos. Um aprendizado duro para qualquer jovem.

Vale a sabedoria Sócrates, antigo filósofo: Se sou um, é melhor estar em desacordo com o mundo do que estar em desacordo comigo mesmo.

A crise na educação à luz do pensamento de Hannah Arendt

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Acredito que por todo o Brasil houve choque ao se ver os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio, ENEM, de 2014, divulgados agora em janeiro, quando soubemos que mais de 500 mil candidatos zeraram a nota de redação, entre outros índices desoladores. A preocupação pela educação perpassa toda a instituição, da pré-escola à Universidade, pelo menos nas escolas que têm compromisso social e não são apenas fábricas de diplomas.

Tomei contato com o texto de Hannah Arendt “A crise na educação”, escrito na década de 1950, nos EUA, com a minha colega e professora da UMESP, Kelly Brandão e decidi compartilhar este debate. O pensamento de Arendt tem como eixo a vida na pólis, ou seja, na cidade, a convivência entre os homens, com este foco, ela volta seu olhar à educação, na qual identifica uma crise. Crise que, a seu ver, não se restringe aos EUA, refletindo uma crise instalada nas sociedades modernas, que descartam o velho, em busca do novo, colocando à educação o desafio de acertar o alvo do futuro.

A crise exige que nos voltemos às raízes, em busca do sentido próprio da coisa; no caso, a educação existe por uma razão muito simples, porque as  novas gerações chegam, precisando ser iniciadas neste mundo que aí está e, enquanto a espécie humana caminhar sobre a terra, o mundo necessitará educadores, simples assim.

Para os recém-chegados, os mais velhos somos representantes do mundo que aí está e isto traz consequências: “o educador está aqui em relação ao jovem como representante de um mundo pelo qual deve assumir responsabilidade, embora não o tenha feito e ainda que secreta ou abertamente possa querer que seja diferente do que é.”

Contudo, “há uma crise porque ninguém é responsável por nada”, diz ela, escrevendo há mais de 50 anos.

Na educação, essa responsabilidade sobre o mundo assume a forma de autoridade, esta não se constrói pela qualificação do educador, no conhecimento sobre o mundo que, certamente, é indispensável, mas “na responsabilidade que ele (educador) assume sobre este mundo”.

Aí jaz um problema: desconfiamos da autoridade. Desbancamos a autoridade buscando combater a opressão e, hoje, contestamos todos aqueles que assumem papéis de autoridade. Entretanto, os adultos ao recusarem assumir sua autoridade, estão lavando suas mãos, aponta a autora.

A crise de autoridade também está relacionada à crise da tradição, ou seja, a crise de nossa atitude frente ao passado. Até o início do século XX, a tradição nos instruía de forma indubitável, rompemos com ela, pois desejávamos uma nova ordem no mundo, agora constituído por indivíduos emancipados. Se em outros tempos era “natural” seguir os pais e avôs, hoje, ninguém quer repetir os pais… Aí nos perdemos, porque perdemos todas referências, como já nos mostrou Giddens.

“O problema da educação no mundo moderno está no fato de, por sua natureza, não poder esta abrir  mão nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado nem pela autoridade nem tampouco mantido coeso pela tradição”, escreve a autora.

Para agir nesta crise, Arendt defende um respeito ao passado, uma vez que ele faz parte de nós. Aqui o professor detém o papel de manter esta memória do mundo, pois seu ofício é “fazer a mediação entre o velho e o novo, por isso a profissão exige um respeito extraordinário pelo passado”. Apesar de toda tecnologia disponível, o jovem não aprende sozinho esta memória do mundo.

Às novas gerações cabe a tarefa essencial de introduzir a novidade, salvando o mundo da obsolescência, “nossa esperança está no novo que cada geração aporta”, pois “o mundo feito por mortais se desgasta, continuamente corre o risco de tornar-se mortal, para ser preservado da mortalidade de seus habitantes, ele deve ser, continuamente, posto em ordem”. Lembrando que matamos a possibilidade do novo se tentamos controlar a aparência do futuro e o que os novos farão.

“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação  e a vinda dos novos e mais jovens.” Arendt é categórica, quem não assume esta responsabilidade não pode ser um educador.

Acredito que questão da responsabilidade diz respeito a cada ser vivente neste mundo, por nossas ações, palavras e pensamentos, mesmo que eu não tenha feito o que está aí e que algum dia eu vá entregar o bastão.

ARENDT, H. “A crise na educação”, Entre o passado e o presente. Ed. Perspectiva.

Relatos de Timbuktu

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Na semana passada assisti a dois filmes que vale a pena comentar, pois fazia tempo que não saía tão pensativa do cinema.

Relatos Selvagens, dirigida por Damián Szifron, mostra, em seis histórias passadas na Argentina, a barbárie de nossas relações em um mundo que se pretende civilizado. Traz  à tona sentimentos do sujeito colocado no olho do furacão, mostrando-o sucumbindo a suas paixões, cólera, sexo, arrogância, dinheiro. Tem sido bastante comentado, contudo não é um filme regular, algumas tramas são melhores que outras, uma delas é a reprodução latina de Um dia de fúria, mas ascendem-se as luzes e estamos com um embrulho no estômago, pois não vemos saída, os nossos baixos instintos ainda dominam, sob o nosso verniz de civilização.

A produção francesa-mauritana Timbuktu, dirigida por Abderrahmane Sissako, um cineasta nascido na Mauritânia, por sua vez, traz a história da entrada de um grupo jihadista em uma vila tuaregue, no norte do Mali, anunciando uma tragédia. Homens de rosto encoberto e fuzis na mão, chegam vociferando as proibições via megafone em diversas línguas, porque eles desconhecem o idioma local: nada de música, nada de dança, nada de futebol, as mulheres devem cobrir mãos e pés e por aí vai. Colocam-se como portadores da lei, asseverando fazer a jihad, em nome de Alá, por sua vez, a população local, também islâmica, professa uma interpretação divergente da palavra do profeta, das formas de cultuá-lo e da própria vida, resistindo numa batalha desigual. Na trama, não há reducionismo, nem melodrama, mostram-se as incongruências e as guerras fora e dentro de cada sujeito.

A histórica cidade de Timbuktu, fundada nos século V d. C., foi um dinâmico entreposto comercial em meio às rotas de comércio trans-Saharianas, a partir do século XV, tornou-se um importante centro cultural islâmico no continente africano. Sua Universidade de Sankoré chegou a ter 25 mil alunos, produzindo um vasto conhecimento que ficou registrado na forma de manuscritos, escondidos pela população local, permanecendo durante séculos nas areias do deserto.

Nestes tempos bicudos,  em que a guerra com sua barbárie não se limita aos fronts, estando por toda a parte,  Sissako em Timbuktu não nos deixa no abismo, oferece uma preciosa chave de entendimento quando um dos personagens diz “a minha Jihad é o meu aperfeiçoamento moral”, colocando-nos a questão, qual é a nossa cruzada mesmo? Lutamos contra o quê? Contra os deuses alheios ou contra as nossas intolerâncias e equívocos? Por que ficamos tentando impor a lei e a ordem aos outros? Não será porque o nosso pensamento e nosso coração andam bem desordenados?

Cinema excelente, na forma e conteúdo e um alento nestes dias em que a sabedoria escasseia.

Os manuscritos

Je sui a tolerância e o respeito

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Confesso que não pensei em dizer “Eu sou Charlie Hebdo”, pois não posso me identificar com um grupo que satiriza as religiões, porque  não gosto, sequer de piadas, quanto mais, sátiras a qualquer grupo. Gosto do humor inteligente que não utiliza outros para fazer rir,  sejam estes outros, mulheres, homossexuais, negros, deficientes, quem quer que seja. As charges trabalham num terreno espinhoso, pois não raro soarão ofensivas a quem estiver no retrato, contudo, elas desempenham o importante papel de expor o absurdo de muitas relações.

11/01/2015, a marcha de solidariedade reuniu no último domingo cerca de 3,7 milhões na França Foto Ian Langsdon/Efe

Feita essa confissão, digo que se estivesse na Franca haveria participado da marcha, pois sou visceralmente contra a barbárie e sair matando pessoas que nos ofendem é barbárie; num mundo civilizado, que estabelece regras de convivência, por mais falhas que elas sejam, a forma de solucionar os conflitos não pode passar pela violência.

Acredito nas formas criadas pelo Estado de Direito para arbitrar pendengas e proteger os cidadãos, inclusive o seu direito de expressão. Não significa que no Estado de Direito vamos suprimir os conflitos, significa apenas que os conflitos não vão ser solucionados pela lei da selva – a do mais forte-, nem pela lei de Talião -olho por olho-, mas pelo que está previsto nos códigos.

O direito positivo, com suas leis universais, públicas e sujeitas à revisão,  apresenta-se como uma conquista do moderno Estado de Direito ocidental. Podemos reclamar de todas instituições, do judiciário, da polícia, para citar algumas, e com muita razão, agora, ninguém pode ser morto pela vontade do rei, nem encarcerado ou estuprado por decisão de algum religioso ou príncipe. Isso faz uma grande diferença!

Os três estados elaborando a declaração, a nobreza, o clero e o povo

A França participa nesta conquista de direitos com sua histórica revolução contra o absolutismo monárquico e contra o poder clerical, tomando por base as ideias iluministas que pregavam, entre outros, a tolerância. A revolução legou-nos a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada por uma Assembleia Nacional, em 1789, na qual sentaram-se,  pela primeira vez, no mesmo espaço, nobres, sacerdotes e mortais sem eira nem beira, para discutir um estatuto comum para o novo tempo.

Uma charge da revolução francesa, 1798

Debater não é fácil, menos com nossos oponentes, mas um grande aprendizado de tolerância e respeito tout court,  ao considerar o outro, um sujeito como eu, com os mesmos direitos que eu imagino que possuo. A nossa parte obscurantista da humanidade ainda precisa deste aprendizado.

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boko haram 15

 

Na semana passada, o grupo extremista Boko Haram atacou duas cidades na Nigéria, Baga e Doron Baga, a Anistia Internacional fala em 2 mil mortos. As cidades ficaram praticamente destruídas, contudo a imprensa internacional pouco repercutiu o massacre.

Os 10 mandamentos dos nativos americanos

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Para 2015, achei importante voltarmos aos fundamentos, por isso escolhi a lembrança de valores muito  antigos, dos povos que guardam a sabedoria da terra.

1. La Tierra es nuestra madre. Cuida de ella.
2. Honra todas tus relaciones.
3. Abre tu corazón y tu alma al Gran Espíritu.
4. Toda la vida es Sagrada. Trata con respeto a todos los seres.
5. Toma de la Tierra lo que es necesario y nada más.
6. Haz lo que se debe hacer para el bien de todos.
7. Agradece constantemente al Gran Espíritu por cada nuevo día.
8. Habla la verdad, pero sólo sobre lo bueno en los otros.
9. Sigue los ritmos de la naturaleza. Levántate y retírate con el sol.
10. Disfruta del viaje de la vida, pero no dejes huellas.

A luz do Natal

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O Natal chegou, momento de alegria, felicidade, compartilhamento de mesas fartas e presentes para celebrar o amor. Bacana.
Se por um lado, o Natal nas propagandas está repleto de gente sorrindo, nas celebrações de fim de ano, a data desperta, no mínimo, sentimentos ambíguos. O Natal está associado a presentes, à ceia familiar, mas e se nossa família não é como a da propaganda?

Nascimento de Jesus no Mosteiro Dafni

Nascimento de Jesus no Mosteiro Dafni

 

Na infância, o Natal comporta uma magia, luzes coloridas, o velhinho simpático que chega de trenó trazendo presentes, ao lado da árvore aparece a imagem de um menino que nasce em uma manjedoura, filho de Maria e José.
Quando nos contam que o Papai Noel não existe, a realidade desaba sobre nossas cabeças. Passam os anos, vemos que os beijos e as palavras de certas figuras familiares podem não ser sinceros, algumas pessoas queridas se vão e o Natal torna-se uma festa vazia, cheia de obrigatoriedades -até de estar feliz-, em um momento que estamos todos cansados, pois é fim de ano. Ao nos tornarmos adultos, somos levados a esquecer a magia, coisa de crianças, dizem-nos. O que celebramos nesta data, mesmo?
O significado do Natal anda longe de nossas referências. Em um mundo desencantado, as narrativas da tradição parecem conversas de velhas carolas, perderam seu valor entre homens e mulheres que se professam modernos, não admira que a celebração natalina esteja reduzida quase que somente à obrigatoriedade da reunião familiar. Inclusive muitos preferem a festa da virada, pois tem sentido despedir o ano velho e saudar a chegada do novo.
Entre os antigos, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, no período, celebrava-se o renascimento da luz, após a escuridão do inverno, no hemisfério norte. Eu gosto do mistério da luz que vêm depois da escuridão, quem passou por uma nebulosa, sabe da importância de se enxergar a luz.

O nascimento de Jesus, Botticelli, séc. XV

Ao racionalizar o mundo, despovoamos o universo do mistério e banimos diversos rituais, seja para fertilizar a terra, germinar a semente, de colheita ou da poda. Ao reduzi-los a uma visão mítica do mundo nos esquecemos que eles pontuam os ciclos da vida. A primazia da racionalidade, para muitas gerações, esvaziou a própria vida de significado, ao se desvencilhar do sentido dado pelas narrativas das diversas tradições.
Gosto dos rituais, pois aprendi que eles nos relembram que a vida é circular e cíclica, bem como de coisas importantes, das chegadas e partidas, ajudando nas transições e passagens. Longe de acreditar que esta visão é verdade universal, mas para mim faz sentido.

Nascimento Místico, Botticelli, 1500-1501

O nascimento de Jesus, o tão esperado Filho de Deus que se faz carne, apresenta-se como uma grande data na tradição cristã da qual somos herdeiros. Poucos sabem que a figura de Jesus inaugura uma nova forma de pensar e se relacionar com o divino, Deus torna-se o amor, deixa de ser a transcrição da lei. Essa nova figuração me parece importante, pois o amor é uma experiência única e irresistível, até para os mais racionais, expressão da nossa divina humanidade.

Neste Natal, aproveite, celebre a vida contida em cada nascimento, conecte no amor que você sente por todos os seus e encante uma criança como aquela que você um dia foi.

8 horas de horror e covardia

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“Matem as crianças”, esta era a voz de comando proferida pelos vorazes do que atacaram uma escola na cidade  de Peshwar no Paquistão na última terça feira (15/12/14). O bando correu por corredores atirando de forma displicente e jogando granadas dentro das salas de aula. Grupos de alunos foram alinhados e executados com tiros na cabeça.

Pouco tempo depois do fim do massacre, que durou cerca de 8 horas, o Paquistão contabilizaria 145 mortos, dos quais 132 tinham idades entre 12 e 16 anos. Esta tragédia ganha repercussão mundial pela sua dimensão, mas o ataque a escolas no país trata-se de uma ação recorrente de terroristas da região que buscam cercear o direito de crianças e jovens a uma vida longe das armas e do horror da guerra.

Peshwar é conhecida como uma cidade de fronteira no continente asiático, a longo de sua história de 2500 anos tem sido porta de entrada para invasões mongóis, gregas, árabes que converteram a região ao islamismo, afegãos, entre outras. Contudo, esta  antiga cidade jamais havia presenciado tanto horror, hoje ela e o país estão de luto. Todas as pessoas do mundo que desejam a paz entre os povos compartilham esta dor.

Estudantes de Karachi se reuniram nesta quinta para prestar homenagem às vítimas do ataque a escola em Peshawar (Foto: REUTERS/Akhtar Soomro)

Um parto na universidade

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O parto, conhecido desde a autora dos tempos como um saber de mulheres, tem sido apropriado pelas ciências médicas e regrado pela indústria da cesárea, em nossa sociedade cada vez mais tomada por fórmulas e remédios que prometem nos livrar do medo e da ansiedade inerente à própria vida.

Desafiando o consenso reinante do parto como cirurgia, algumas mulheres e lutam para se reapropriar do entendimento do nascer. O livro Sem hora marcada realizado a 8 mãos por Anna Carolina Gomes, Guilherme Vitoretti, Letícia Lopes e Renata Ambrosio, conta as experiências de corajosas gestantes e mães que ouviram o próprio corpo, intuíram a sabedoria da natureza e buscaram trazer seus filhos ao mundo sem intervenções desnecessárias, assim como suas mães, avós e todas as mulheres de outros tempos o fizeram. Ao ler seus relatos, sentimos seus medos e anseios, mas também a força e a integridade naquele que é considerado um dos momentos mais sagrados da vida, o nascimento.

sem hora marcada fotoCarol, Guilherme, Letícia e Renata , meus orientandos, defenderam ontem seu trabalho de conclusão de curso uma exigência do Curso de Jornalismo da UMESP, na banca participaram Giovanna Balogh, repórter da Folha de S.Paulo editora do blog Maternar e Marli dos Santos, Coordenadora do Pós-Graduação em Comunicação da UMESP. O tema escolhido foi bastante elogiado, pois nossa sociedade pouco pensa na forma em que estão nascendo as próximas gerações.

Dizemos que realizar um TCC é como parir, são meses de gestação até o filho/produto nascer. A metáfora procede, agora este produto especial está à procura de uma boa editora para chegar às melhores livrarias para que possa ser compartilhado por todos aqueles interessados em tornar a nossa vida e a das próximas gerações muito melhor.

* http://maternar.blogfolha.uol.com.br/

O caso do juiz que “não é Deus”

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Infelizmente para nossa vida social, todos os dias assistimos bizarrices e barbaridades, nesta semana ganhou destaque o caso da fiscal de trânsito Luciana Silva Tamburini condenada a indenizar em R$ 5 mil ao juiz João Carlos de Souza Correa.

Recupero o caso. Em 2011, João Carlos de Souza Correa foi abordado durante uma blitz da Operação Lei Seca, no Leblon, Zona Sul do Rio por dirigir um veículo sem placas, logo a seguir Luciana constatou que além disso, ele, motorista, não portava Carteira Nacional de Habilitação. Qualquer mortal teria o carro rebocado nessa situação. João Carlos logo afirmou ser juiz, ameaçou os fiscais e chegou a dar voz de prisão a Luciana por desacato, pois ela afirmou o “Sr é juiz, mas não é Deus”.

A agente moveu um processo contra o magistrado, exigindo uma indenização, alegando que ele tentou receber tratamento diferenciado por causa da função do cargo. Em primeira  instância, no entanto, a Justiça entendeu que a fiscal ironizou uma autoridade pública e reverteu a ação, condenando a agente a pagar a indenização. Ela recorreu.

Nesta  semana, saiu o resultado  em segunda instância, o desembargador José Carlos Paes, da 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro condenou Luciana por considerar sua afirmação um insulto e por abuso de poder e ofensa “a função que ele (magistrado) representa para a sociedade.”

Eu, assim como muitos, me perguntei, quem naquele momento desempenhava uma função em prol da sociedade e estava cumprindo o seu dever?

Repercussão. A decisão provocou um sentimento solidariedade para com Luciana Silva Tamburini, pela web criou-se uma vaquinha eletrônica que em poucos dias reuniu o dobro da quantia.

Embora esta mobilização mostre que a cidadania está ligada e condena o arbítrio, o caso é exemplar para se perceber porque fica tão difícil agir corretamente e até mesmo em cumprimento do dever em nossa sociedade.

Fecho com aquelas perguntas que não calam, pois quem cala consente. Quem ofendeu a magistratura, a fiscal ou João Carlos de Souza Correa? A fiscal ou a decisão do desembargador José Carlos Paes, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro?

As autoridades podem estar acima da lei? Que eu saiba não em um estado de direito…

 

Nove horas na estrada para uma surpresa

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O professor Giovane Alves  durante a conferência de encerramento da V Semana de Educação e direitos Humanos,  proferida ontem na Universidade Metodista de São Paulo, no Campus Rudge Ramos, colocou que, na atualidade, a precarização está disseminada, não se reduz ao mundo do trabalho, mas também irrompe em todas as relações dos indivíduos em sua vida cotidiana. A palestra Precarização do trabalho, direitos humanos e neodesenvolvimentismo no Brasil era acompanhada pelos alunos dos diferentes cursos da Universidade, como Direito, Jornalismo, Filosofia, mas também estava sendo assistida, via satélite, pelos alunos do curso de Ciências Sociais à distância (EAD) que tem pólos localizados em diferentes pontos do Brasil, Salvador, Altamira, Porto Velho, Rondonópolis, para citar alguns.

Giovanni Alves é professor da UNESP-Marilia, livre-docente em teoria sociológica

Na Universidade, não estamos imune a essas vicissitudes descritas pelo professor Giovane Alves. Por exemplo, para nós, professores, o EAD é um desafio. Como ensinar sem ver o seu aluno? Nós conhecemos nossos alunos via trabalhos recebidos e avaliações periódicas, contudo não os vemos. Os alunos nos conhecem mais, pois toda semana assistem nossas teleaulas que são transmitidas via satélite. No nosso sistema não são requentadas aulas antigas, toda semana há uma aula nova e, como no sistema presencial, durante a aula, o aluno pode interagir, fazer perguntas, observações, sempre enriquecendo o debate.

Ao longo dos anos, nestes eventos abertos como a V Semana de Educação e Direitos Humanos de 2014 e as aulas magnas do curso ministradas por professores convidados, ocorrendo semestralmente, recebemos visitas de alunos de diferentes pólos, não só dos vizinhos Rudge Ramos e Mauá, mas também de alguns pontos mais distantes da região metropolitana, como Guarulhos, Guaianazes e Perus.

Estes encontros permitem o compartilhamento, percebo-os como um antídoto contra a precarização das relações, os bons debates sempre ampliam o horizonte da reflexão, mas trata-se de um momento em que os professores e alunos se reúnem e podem trocar figurinhas. Nesta nossa vida corrida isto é significativo.

Prof. Décio Saes durante a aula magna

Prof. Décio Saes durante a aula magna

Há duas semanas, no dia 28 de agosto, quando da aula magna do curso de Ciências Sociais EAD, proferida pelo professor Décio Azevedo Marques de Saes, da Faculdade de Humanidades e Direito da UMESP, ocorreu algo inusitado, tivemos a surpresa de receber uma delegação do polo de Petrópolis que viajou nove horas para estar conosco em São Bernardo do Campo naquele instante. Claudio de Jesus Oliveira e Rose Lima dos Santos, alunos do último semestre do curso, deixaram as atribulações do seu cotidiano, rodaram, se perderam na estrada, mas chegaram, eles não queriam se formar sem partilhar dessa experiência, desejavam conhecer e serem conhecidos pelos professores e trazer notícias de suas terras. Isto não é pouco. Valeu!

No Telão uma questão de Wesley, aluno polo de S. José do Rio Preto

No Telão uma questão de Wesley, aluno polo de S. José do Rio Preto

Sem este intercâmbio nós, professores, estaríamos ilhados num reino distante de tudo o que ocorre nos diferentes mundos do Brasil!

Claudio Oliveira, o professor Cécio Saes, a coordenadora do curso de CS Claudete Pagotto, o prof. Paulo Barrera e Rose Lima

Claudio Oliveira, o professor Cécio Saes, a coordenadora do curso de CS Claudete Pagotto, o prof. Paulo Barrera e Rose Lima

POLÍTICAS PÚBLICAS DE INCLUSÃO DIGITAL: PRAÇAS WI-FI

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Valério Igor Victorino

Especialista em Desenvolvimento Urbano – PMSP
Uma das características centrais da sociedade contemporânea é a intensa transmissão de conhecimento e informação por meio de tecnologia digital e equipamentos eletrônicos portáteis ou não. Partindo do princípio de que conhecimento é poder, pressupõe-se que o individuo que não tem acesso às vias de difusão de conhecimento e informação está de algum modo excluído dos canais de influência e oportunidades que poderiam permitir melhoria de suas condições de vida e o desenvolvimento de sua personalidade. O acesso aos meios de difusão digital é limitado principalmente pelas condições socioeconômicas, o que exclui grande parte da população brasileira.

De modo a ampliar a inclusão digital e reforçar os canais de exercício da cidadania da população paulistana, a prefeitura de São Paulo teve a iniciativa de criar o projeto de Praças wi-fi. Trata-se de promover condições de acesso à internet nas principais praças de cada subprefeitura e nos principais marcos simbólicos da cidade. Pretende-se atender inicialmente 120 localidades distribuídas entre os 96 distritos da capital, priorizando regiões consideradas críticas, aquelas com grande circulação de pessoas.

Trata-se de um tipo de política pública no seu sentido mais tradicional, derivando toda iniciativa do campo da competência da autoridade pública, legal e legitimamente constituída. Nos estudos especializados de políticas públicas a abordagem estadocêntrica (state-centered policy-making) tem que somente são públicas as políticas derivadas do poder estatal. A contraposição a esta posição é a abordagem multicêntrica, que refere-se a política pública de acordo com o objeto a ser enfrentado, e não à fonte de atuação.

A criação de praças wi-fi sintetiza um projeto que representa o desdobramento de um programa de inserção dos munícipes no mundo digital, que por sua vez é fruto do plano político de aumentar a capacidade dos cidadãos em participar da vida social e política da cidade.

Dentro da tipologia criada por Theodor Lowi em 1964 (conforme Souza, 2003 e Secchi, 2013) podemos classificar esta política pública de inclusão digital da Prefeitura de São Paulo como uma política distributiva, posto que a decisão tomada pelo governo municipal gera impactos mais individuais do que universais, ao privilegiar certos grupos sociais – aqueles indivíduos que possuem equipamentos de tecnologia móvel de acesso à informação e ao conhecimento – ou regiões, distribuindo os custos de modo difuso para toda coletividade de contribuintes.

A consideração heurística do ciclo de políticas públicas por parte do analista serve-se das etapas consagradas na literatura no que se refere a: identificação do problema; formação da agenda; formulação de alternativas; tomada de decisão; implementação; avaliação e extinção (Secchi, 2013).

No que tange às políticas de inclusão digital, tendo como foco o projeto de criação de praças wi-fi, o problema foi identificado a partir do momento em que se diagnosticou que a sociedade está sofrendo mutações culturais e políticas, decorrentes da expansão das tecnologias de comunicação em rede (Castells, 1999) e que a desigualdade socioeconômica gera exclusão das estruturas de serviços desta nova sociedade. O problema da exclusão digital transformou-se em um tema relevante e a busca de solução do entrou na lista prioridades, ou seja, para a agenda governamental ao mesmo tempo em que o problema está emergindo publicamente e se tornando mais complexo.

A formulação de soluções para problemas de natureza pública passa pelo estabelecimento de objetivos e a elaboração de métodos, programas e estratégias – definição de alternativas de solução.

O programa de inclusão digital está em fase de implementação em toda cidade, sendo que a atividade-meio foi quantificada como meta na implantação de 120 praças digitais wi-fi em 96 distritos até o final da gestão atual de governança. O quanto isto impactará no percentual de incluídos e excluídos na sociedade da informação digital e o quanto isto elevará o nível de desenvolvimento da cidadania, é uma incógnita a ser trabalhada no campo da avaliação de políticas públicas, campo incipiente no Brasil.

Bibliografia

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

SECCHI, Leonardo. Políticas públicas: conceitos, esquemas de análise, casos práticos. 2ª, São Paulo: Cengage Learning, 2013.

PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Secretaria de Serviços. Portal, 2013.

SOUZA, Celina. Políticas públicas: uma revisão da literatura. Sociologias. Porto Alegre, ano 8, nº 16, jul/dez 2006, p. 20-45.

Uma história singular do meio do pacífico, o povo Rapa Nui

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A ilha Rapa Nui, também conhecida como ilha de Páscoa, nome dado por um holandés que lá chegou no dia da páscoa, tem uma história ímpar. Porta de entrada da oceania, seu povo sofreu invasão de  piratas,  foi tomada por espanhóis , sofreu epidemias que dizimaram a população e teve milhares de pessoas  escravizadas no século XIX.

No final do século XIX, um controvertido acordo entre representantes Rapa Nui e o governo chileno entrega soberania da ilha ao Chile, o que permitiu que, no século XX, as terras fossem incorporadas ao território chileno e o povo insular perdesse sua autonomia.

A partir de então, o Estado chileno não reconhece as autoridades rapa Nui, cuja administração passou por mãos particulares e depois da marinha, antes de ser integrada ao Chile propriamente. O povo polisésio desconheceu a existência de direitos políticos ou civis e ficou isolado por décadas, pois o contato com o continente era feito pela marinha do Estado chileno e por voos da Lan Chile, até o momento em que foi descoberto como uma rota de turismo pela existência de seus misteriosos Moais.

Hoje, vivem aproximadamente 3 mil rapa nui na ilha, suas principais demandas são a autodeterminação e direitos sobre a terra, baseados no direitos dos povos originários, direitos que o Estado chileno se recusa  reconhecer.

Recomendo

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Para quem sente fascínio pelo céu, por suas cores e estrelas recomendo este site El cielo de Canarias, um projeto do fotógrafo Daniel López. Lá encontrarão auroras boreais, nebulosas e muitos outros mistérios estelares. http://www.elcielodecanarias.com/

A via láctea cruzando o céu das ilhas Canárias

Fica a dica.

Islândia, buscando localizaciones para fotografiar Auroras Boreales en la expedición de 2012

acesse  o http://www.elcielodecanarias.com/

Foto noturna da suprema Via Láctea

 

 

Homenagem ao senhor das pedras do reino

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Nestes dias nos deixaram diversas figuras indispensáveis da alegria e do pensamento brasileiro, Ariano Suassuna e Ruben Alves, dois mestres incansáveis na arte do transmitir às novas gerações a riqueza de nossa cultura.

Hoje, me detenho em Suassuna, paraibano,pernambucano, nordestino e acima de tudo, brasileiro. Erudito, homem do povo, poeta e dramaturgo, da tradição dos grandes contadores de histórias. Estudou direito, tornou-se advogado, idealizou e dirigiu o movimento armorial, através do qual buscava realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do país, amava proferir suas aulas espetáculos.

Depois de sofrer dois infartos e um aneurisma aos 87 anos prosseguia trabalhando. Em uma entrevista à Folha de São Paulo, publicada em dezembro de 2013, Suassuna contava sobre as fogueiras que vinha pulando:

“Poucos dias antes de adoecer em uma entrevista me perguntaram se eu tinha medo da morte, eu disse “eu não gosto de contar valentia antecipada, acho que a gente só pode dizer que não tem medo de alguma coisa depois de enfrentá-la. Agora, até onde eu vejo, eu não tenho medo da morte. Eu tenho pena de morrer sem ter realizado certas coisas. Por exemplo: se visse que não dava para terminar o romance que escrevo, aí teria muito pena de morrer.  Engraçado, quando eu estava lá no hospital) nos primeiros momento que descobri que tinha tido um infarto eu me agoniei muito porque tinha deixado o manuscrito em casa (…).  Cada capítulo do livro é escrito em forma de cartas, sob certo aspecto é um romance epistolar, e toda carta termina do mesmo jeito. Porque eu digo lá que fiz um pacto com Deus, e fiz mesmo: se ele achasse que o romance tinha alguma coisa de sacrílego ou de desrespeitoso, que interrompesse pela morte – coisa com a qual desde agora eu me declarar de acordo.” (Fábio Victor, Ilustrada, FSP, 23/12/2013)

O segredo da criação

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Leonardo da Vinci, Figura de Cristo. 1490-5

A arte nos toca, admiramos cada obra de Leonardo da Vinci, cada traço de Picasso, somos embalados pela magia de Giberto Gil, da poesia de Drumond e tantos outros. Um atributo eminentemente humano que nos iguala aos deuses, a arte, contudo parece haver-se distanciado do cotidiano das pessoas, parece talento de seres especiais, dotados de maior sensibilidade e fica  guardada em lugares especiais, nos museus.

Nesta visão, esquecemos que  ao cuidar do jardim,  preparar um saboroso prato, tecer um suéter,  bordar um pano de prato e, sem dúvida, o momento mais mágico, ao gestar um filho, homens e mulheres estão criando.

Não raro, somos nós que podamos as asas da nossa criação, nosso julgamento cai como uma lâmina cortando as nossas ideias, algumas vezes já matamos a semente do projeto “não vai dar certo”, “é muito ingênuo”, “vão dar risada”, pensamos, quando não é alguma dificuldade que nos faz esmorecer e deixamos para lá, afinal “quem disse que ia dar certo?” Em outros momentos, deixamos o trabalho dentro da gaveta, seja porque o texto não está à altura do García Marquez, a pintura não chegou ao nível do Picasso, não alcançamos a expressividade de um Caetano Veloso, enfim. Como se Picasso, Gabo ou Caetano não tivessem sido crianças a brincar com cores, sons e letras. O nosso julgamento  é cruel conosco.

Também ocorre que a gente muitas vezes só quer produzir belezas e se espanta com o que sai, mas criação é muito mais do que produzir belezas, a arte permite dar forma à dor, ao estranho, às angústias, possibilita expressar nossos medos, colorir as sombras e fantasmas que nos assolam. Quem já viu a pintura de Salvador Dali sabe, ele desenhava seus sonhos, um material riquíssimo e perturbador, ao mesmo tempo. E a angústia de Edward Munch em O Grito, um quadro de dimensões pequenas, mas que traduziu sentimentos que assolam  em algum momento a tantos de nós. Imagino que estes autores criavam por absoluta necessidade.

Munch, O grito, em litografia, de 1900

Acima de qualquer coisa, a criação precisa fazer sentido para nós, quando deixa de fazer sentido, ficamos “de mal” com a criação e até a vida parece insossa.

A arte, como tudo na vida requer treino, dedicação, dizem que o Salvador Dalí acordava e ia para o seu estúdio,  de onde quase não saía,  ele dizia que ele queria que quando as musas o visitassem,  o encontrassem trabalhando… os chefs de cozinha também conhecem este segredo.

As lições de um 7X1

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Seleção entrando na partida de abertura contra a Croácia

A derrota de ontem não foi uma derrota comum, uma seleção que ficou entre as quatro melhores do mundo perdeu de lavada. Foi tão surreal que os vencedores nem puderam curtir a vitória em público, eles ficaram contidos, buscando não ferir ainda mais os brios do anfitrião. Penso até que eles teriam preferido vencer suando a camisa, no sofrimento.

O fato do Brasil sediar a competição mundial, pelo que se viu, trouxe uma pressão extra para os jogadores: estes viram-se obrigados a vencer o torneio. Do técnico, à presidenta, passando pelos cartolas CBF, todos exigiam da moçada, a taça. Alegria para o povo brasileiro? Sem dúvida, e cada um querendo o seu filão de troco.

A escalação reunia 23 feras, presumo eu, talentos espalhados pelo mundo, jogando em diversos esquadrões, reunidos um mês antes do torneio, para se tornarem um time. Tarefa difícil. A esperança, tal como em outros carnavais, recaía na ginga brasileira e nos talentos individuais, outrora Zico e Ronaldo, em 2014, Neymar.

Neymar, este jovem excepcional de 22 anos, cara de moleque maroto, era a maior esperança do time. Numa jogada em campo, sofre uma lesão; justamente ele, que levava o time nas costas, fraturou uma costela. Seria coincidência? Seus colegas prometeram jogar na semifinal pelo ausente, na dor o time cresce, imaginou-se; na sua falta, contudo, ficou a descoberto que não havia time preparado para tal desafio.

Uma disputa mundial reúne os grandes do esporte, acredita-se, que sabem não apenas seu ofício, mas também que ao entrar na arena, estão num jogo que, se não vale a própria vida, como em outros momentos da história universal, vale muito. No campo, trava-se uma luta e espera-se jogadores prontos para tal, para dar o sangue e porrada também -por isso há árbitros para  civilizar a disputa.

Ontem, causou espanto a inação de toda uma equipe, o próprio técnico reconheceu o apagão geral. Mas os sinais já apareciam no percurso.

Hoje, recordo certas cenas estranhas, começando pela saída do túnel, o momento que deveria ser a gloriosa entrada da seleção em campo, os  jogadores com a mão no ombro do colega, mais pareciam uma fila de crianças entrando na sala de aula. Depois, durante do hino, os jogadores de braços dados, numa posição de irmandade, agora distante de demonstrar  orgulho e respeito por um símbolo pátrio. Estavam abraçados ou se segurando? Nada apontava para a força do guerreiro.

Seleção brasileira entra em campo para a partida contra o Chile, no Mineirão, pelas oitavas de final da Copa

Seleção brasileira entra em campo para a partida contra o Chile, pelas oitavas de final da Copa, a criançada entra mais altiva

Foi muita pressão para um grupo que não chegou a se conformar como tal? Com certeza, pois deixaram até de fazer o que sabem: jogar. Viu-se o que são, jovens ainda imaturos, sem preparação para enfrentar a barra de uma Alemanha e do próprio Brasil. Eles têm muita vida e carreira pela frente, espero que compreendam o peso excessivo colocado em suas costas e dêem a volta por cima.

Se triste é o país que precisa de heróis, mais ainda perceber que a honra nacional ainda está concentrada no futebol. Se a seleção brasileira (ou o time do coração) ganha nossa autoestima vai às alturas e erguemos os jogadores à categoria dos heróis, se o time perde, nos sentimos miseráveis. Todas as fichas apostadas em um único jogo, catástrofe previsível.

O baque traz boas lições, ninguém gosta do sofrimento, contudo ele é vital para o crescimento, para aquele que se dispõe a olhar a sua dor e a dar um jeito nela. Ontem, a Alemanha venceu, mas em 2006, a seleção foi derrotada numa copa do mundo, disputada em casa. Para dar a volta por cima, os alemães decidiram investir pesado das bases aos treinadores. A fórmula para um bom resultado é conhecida, investimento e muito trabalho. O Brasil poderia seguir o exemplo alemão para se recuperar do apagão que domina do futebol ao setor energético, passando por hospitais e escolas públicas. Conquistando a glória de uma vida digna para todos os escalões, não precisaríamos buscar heróis de plantão.

Na abertura da copa, os meninos da ponta se destacam pela postura correta ao  cantar o Hino Nacional

Violência e silêncio no mundo islâmico

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Imagem das jovens que foram convertidas ao islã

No dia 14 de maio completou um mês do sequestro de mais de 200 jovens de uma escola internato no vilarejo de Chibok na Nigéria, feito pelo grupo Boko Haram. Num operativo que contou com cerca de 200 homens armados que na calada da noite chegaram ao local para roubar mantimentos e levar as estudantes.

O grupo belicista age em nome de uma suposta “guerra santa” – nesse caso, contra o modelo de educação “ocidental” seguido no país. Na língua local, hausa, Boko Haram significa “educação ocidental é proibida”. De acordo com o grupo que segue uma visão islâmica fundamentalista, o lugar das mulheres é em casa, a serviço do marido e dos filhos.

Não foi a primeira ação do bando, em março deste ano, mataram 29 homens em outra escola, poupando as estudantes, mas ameaçaram: “voltem para casa e casem-se”. Imaginaram que seria uma lição para todo o país, como em alguns lugares as moças prosseguiram os estudos foram sequestradas.

O paradeiro das jovens sequestradas é incerto, o grupo chegou a dizer que as venderia. Sabe-se que foram convertidas ao islamismo, imagina-se que elas foram divididas e certamente algumas serão obrigadas a se casar com membros do Boko Haram, agora todas,provavelmente, tornar-se-ão escravas.

Embora se saiba que várias linhas do islamismo não são fundamentalistas, chama a atenção o silêncio dos líderes religiosos do mundo islâmico com relação à violência cometida em nome do islã. O silêncio significa omissão e a omissão compactuar com a violência.

Campanha pela volta das jovens mobilizou protestos nesta semana na capital Abuja

Imagens da Grande Mãe

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Vênus de Lespugne

No princípio eram as deusas. A Grande Mãe é um poderoso arquétipo que acompanha   história da humanidade. Vale a pena passear por algumas de suas imagens.

Ísis e seu filho Hórus, no Egito 2500 a.C.

Painel ornamental da Ara Pacis, em Roma – fachada leste, representando ou Tellus, Deusa da Terra, ou Bona Dea/Maia

Botticelli – 1445-1510

Arte bizantina

La Pietá de Michelangelo

Deméter e Perséfone, na Grécia antiga, Ánfora de 480 a.c

O Inca, o futebol e o preconceito

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Os estádios de futebol produzem cenas dentro e fora do campo muito reveladoras desta humanidade que nós conformamos, que ganham visibilidade, devido à visibilidade conquistada pelo esporte. No início deste mês, torcedores do Corinthians entraram nas instalações do clube e barbarizaram, mas vou comentar outro caso desolador, o racismo durante o jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso no último dia 12 de fevereiro.

Na partida, disputada na cidade de Huancayo pela Copa Libertadores da América, o cruzeirense Tinga entra aos 21 minutos do segundo tempo, a torcida começa a gritar “macaco” e daí seguem outros insultos. O caso recebeu ampla cobertura da mídia e até a presidente Dilma se manifestou. Parece paradoxal o racismo ocorrer num país mestiço como o vizinho Peru. Alguns dirigentes do Garcilaso se manifestaram, entre eles, o treinador que disse não ter percebido nada em campo, mas pediu desculpas ao jogador visitante.

Real Garcilaso é um time jovem da cidade de Cuzco, antiga capital do império incaico, cujo nome homenageia Gómez Suárez de Figueroa, mais conhecido como Inca Garcilaso de la Vega. Gómez Suárez era filho da princesa inca Isabel Chimpu Ocllo e do capitão espanhol, Sebastián Garcilaso de la Vega, este, por sua vez, sobrinho de um renomado escritor espanhol. Após  uma temporada na Espanha, Gómez Suárez muda o seu nome para Inca Garcilaso de la Vega e se torna escritor, como o tio. Comentários Reales de los Incas, seu livro mais conhecido, publicado em 1608, relata a história e a cultura dos diversos povos do Peru anteriores à conquista. A obra será censurada, no século XVIII, após o levantamento de Tupac Amaro II pela lembrança dos incas, suas ideias foram consideradas perniciosas neste momento colonial.

O Inca Garcilaso, se bem no Peru, era filho de um militar, numa Espanha conservadora, na virada do século XVI, não passava de um mestiço, por isso deve ter sofrido com o racismo preconceito, racismo e preconceito que o próprio povo sofria nas mãos de espanhóis colonizadores. Mas o filho do conquistador decide corajosamente incorporar no seu nome a sua mestiçagem.

Penso que o Inca Garcilaso teria ficado envergonhado dos torcedores se seu time. Ele que usou sua escrita para fortalecer a identidade do seu povo também mestiço. O Real Garcilaso venceu a partida, mas vitória ficou empantanada pelos gestos da torcida que perdeu uma oportunidade de mostrar ao mundo, algo melhor do mundo andino.

Tinga relembra ter sofrido com o racismo na Europa, mas não esperava sofrê-lo numa pequena cidade do Peru. Aliás, ninguém esperava… No entanto, os gritos ouvidos no estádio mostram que sofrer o racismo não nos torna imunes a cometer atos de racismo.

“No futebol você acaba se acostumando a este tipo de coisa, mas minha família não está preparada. Liguei para casa e fiquei sabendo que o meu filho ficou chorando e assistindo pela TV e nem mesmo quis ir para a escola.” Disse ele, numa entrevista à Folha de S.Paulo.

Esse é o mundo que mostramos às nossas crianças, nos estádios e fora deles, será que algum dia poderemos mostrar-lhes uma faceta melhor?

A chama dos Olímpicos

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Mosaico de Oympia

Sochi, na Rússia, neste começo de 2014, sedia os Jogos da XXII Olimpíada de Inverno, recebendo atletas de 87 países de todos os continentes. A abertura oficial do evento teve como ponto culminante a chegada da tocha proveniente da cidade grega de Olímpia, após viajar por mares, pelo espaço e até de camelo para acender a pira do conjunto olímpico. Muito da simbologia presente na abertura remonta à antiguidade: o fogo, a chama dos deuses, o desfile, o juramento dos competidores, os louros, entre outros.

Ruínas do ginásio de Olímpia

Os mais antigos registros dos jogos da cidade de Olympia remontam ao ano 776 a.C., sabe-se que estavam consagrados a Zeus, o patrono do talvez mais célebre santuário do mundo antigo, localizado na cidade.

Os jogos duravam sete dias e se iniciavam com oferendas ao pai dos deuses e dos homens. As guerras, muito frequentes entre os povos das ilhas do mar Egeu, deveriam cessar para que os jogadores e suas famílias pudessem viajar em segurança, estabelecia-se uma paz olímpica três meses antes dos jogos. Depois a própria região tornou-se sagrada.

Na ilha de Rodes, o Porto de Mandraki nos dias de hoje. Mandraki tem sido o principal porto da ilha por mais de 2500 anos

Na ilha de Rodes, o Porto de Mandraki nos dias de hoje. Mandraki tem sido o principal porto da ilha por mais de 2500 anos

Dos jogos, participavam apenas homens que residissem na Hélade ou nos territórios. As disputas nesta celebração em honra a Zeus, o grande fecundador e principalmente aquele que subjugou o caos e estabeleceu uma ordem no céu, na terra e no submundo, eram regradas e os homens exibiam a sua destreza, força e potência. Os ganhadores não recebiam dinheiro, mas as honras dos heróis, o prêmio mais desejado na antiguidade.

Estes jogos contribuíram para a criação de um sentimento de fazer parte de uma unidade para um conjunto de povos vizinhos unidos e separados pelo mar Egeu, do Bósforo, onde hoje está Istambul (capital da Turquia) à Creta, passando por Ítaca,  Esparta, Creta, Delos.

Acredito que sua instituição no mundo contemporâneo promove os mesmos ideais que conduziam os antigos, torna-se uma honra fazer parte do grupo dos olímpicos e, mais ainda, sagrar-se vencedor no torneio. E, certamente, ao ver no mesmo estádio delegações de todos os cantos do mundo, sentadas lado a lado, revive-se o sentimento de unidade: por diferentes que sejam as nossas feições, cor de pele, cabelos e olhos, fazemos parte da mesma humanidade e de um único mundo.

Acrópole de Lindos, datada de 200a.C, na ilha de Rodes

Acrópole de Lindos, datada de 200a.C, na ilha de Rodes

Os jogos de Olympia chegaram ao fim em 394 d.C., quando o imperador romano Teodósio I suprimiu todas as celebrações pagãs numa manifestação despotismo e intolerância. Os jogos foram retomados apenas em 1896 na Grécia. Sua história recente com interrupções durante as guerras mundiais e um atentado na própria vila olímpica, em Munique, em 1972, nos mostra que a paz é sempre frágil e devemos estar sempre atentos aos ataques da intolerância. Cabe a nós zelar pela continuidade desta chama.